‘Meu marido foi velejar e desapareceu há 34 dias. É uma angústia indescritível'

A professora aposentada Fátima Calaça, 65 anos, viu seu marido sair para velejar no dia 15 de janeiro, mas ele nunca mais voltou. Duas semanas depois, as buscas pelo barco foram suspensas sem pistas do que pode ter acontecido. Sozinha na luta para encontrá-lo, ela conta como tem vivido até aqui

Por Carol Sganzerla, Colaboração Para Marie Claire


Fátima e Edison a bordo do veleiro, em viagem a Angra dos Reis em 2003 Arquivo pessoal

‘Aquele domingo começou como outro qualquer. Tomei café da manhã, reguei minhas plantas e o Edison, meu marido, seguiu para o clube náutico de Santos, perto das 9h30 da manhã, como sempre fazia. Ele entrava naquele barco e passava horas fazendo a manutenção, arrumando o motor. Era a terapia dele. Nesse dia, ele tinha ido testar o piloto automático que havia quebrado uma semana antes, em uma viagem pelo litoral.

Fiquei em casa, assisti a dois filmes e o fim da tarde chegou trazendo um temporal carregado de raios e uma forte ventania. O Edison não chegava e fui ficando muito preocupada, pois ele nunca esperava o tempo mudar para voltar. Esperei mais um pouco, e pensei: ‘Alguma coisa aconteceu’. Tentei ligar para ele, não consegui, e como na portaria do clube náutico não tem telefone, não tinha como entrar em contato.

Mal consegui dormir essa noite, choveu torrencialmente a madrugada toda. Às 5h da manhã já estava de pé e, às 7h, fui para a marina ver o que tinha acontecido. No caminho, passei no postinho de saúde, mas não achei nenhuma intercorrência com o nome dele. Entrei na marina perguntando ‘onde está o Alemão: 'Onde está Edison Gloeden, onde está o barco?’. Corri para o local onde as embarcações ficam estacionadas e o nosso barco não estava lá. Pedi para ver o registro de saída do barco e descobri que não tinham feito. A irresponsabilidade do clube foi tão grande que fiquei assustada. Fui falar com o marinheiro que viu meu marido sair por volta das 14h30 e, na hora, ele entrou em um barco para tentar acionar o rádio do nosso, mas não conseguiu localizá-lo.

Fomos até a praia Pouca Farinha, no Guarujá, onde solicitei um barquinho de pescador para verificarem se tinha alguma embarcação. Eles foram até a praia do Tombo e não encontraram nada. Nesse meio tempo, liguei para amigos velejadores para dar o alerta enquanto o gerente da náutica ligou para outras marinas. Saí de lá às 13h sem nenhuma resposta, nenhum sinal. Acionei o 190 para fazer o boletim de ocorrência e na terça de manhã, o helicóptero Águia da Polícia Militar foi acionado. As buscas da Marinha só começaram na quarta-feira. Na segunda-feira, ele já deveria estar a 100 milhas, na terça, a 120… a Marinha não chegou nessa altura de busca.

Velejadores experientes me diziam que, pelas medições náuticas, o barco do Edison provavelmente foi rumo ao ao sul; tinha muito marola na baía por causa da movimentação dos jetskis, que não são fiscalizados como deveriam. Pela previsão deles, na segunda-feira o barco já devia estar a 100 milhas de distância, a Marinha não chegou nessa altura de busca. Tudo pode ter acontecido: ele ter tido uma avaria elétrica, mecânica, uma avaria no leme, pode ter tentado arrumar alguma coisa e perdido a noção do tempo, pode ter pegado aquela chuva, um raio… As possibilidades são tantas que nem sei o que pensar. Tudo já passou pela minha cabeça. Eu tinha medo de perguntar quando eles iam parar.

Fátima Calaça junto ao marido, Edison Gloeden, em foto atual — Foto: Arquivo pessoal

Passados 16 dias, recebo uma ligação da Marinha do Brasil dizendo que as buscas tinham sido suspensas. Me deseperei. Como assim? Não há vestígio nenhum do barco, não há vestígio de pessoa, não foi vista uma panela, uma almofada boiando. Não existe sinal de que tenha tido algum tipo de acidente, caso contrário, teriam destroços do barco. Não existe nada e, de repente, você para no tempo e fala: acabou. Eles me deixaram assim, sem resposta. ‘Acabaram os recursos’, argumentaram. Se tivessem começado antes, com uma busca mais assertiva, teriam economizado.

Como não encontram uma embarcação de 10 metros? A minha indignação é que eles não acham que somos dignos de respeito. Se fosse algum político, alguém com poder econômico, social, alguma estrela, estariam fazendo mais. Mas a Marinha não percebe a importância do ser humano, ela é burocrática

Até agora estou em um estado catatônico, é pior que um choque. Eu quero saber o que aconteceu. O sentimento não cabe dentro do peito, é uma angústia que não consigo suportar. É indescritível. É como você estar lendo um livro e, de repente alguém vem, fecha o livro, e diz: ‘Acabou’. Nas duas primeiras semanas, não conseguia falar, não conseguia dar entrevista. Meu marido era capitão, ele sabia o que estava fazendo, era uma pessoa competente, experiente, ele sabe navegar. Fernando Pessoa [poeta e escritor] dizia: ‘Navegar é preciso, viver não é preciso’. O que significa que navegar requer precisão, estudo, medição.

O Edison sempre sonhou em ter um barco. E eu, filha de portugueses nascidos na Ilha da Madeira, já era acostumada com o mar, meu pai era pescador. Eu abracei esse sonho, compramos o barco em 1999 e nunca mudamos o nome original: Sufoco III. Ele tem dois quartos, uma sala, cozinha, um banheiro. Fazíamos viagens para Ubatuba, Ilha Grande, Rio de Janeiro, Angra dos Reis, uma vez ele foi até Fernando de Noronha. Ele era surfista, chegou a ter uma fábrica de pranchas, depois fez faculdade de arquitetura e design. Estamos juntos há 36 anos e não tivemos filhos.

Eu tinha 29 quando o conheci. Nosso encontro aconteceu em um bar, em Santos, onde sempre moramos. Eu estava em um grupo de amigos, lembro que o lugar tocava MPB. De repente, ele entrou e fui até o balcão pegar uma água. Quando levantei a mão para pegar a garrafa, ele esticou a dele e colocou um papel na minha que estava escrito ‘me liga’, junto com o número. Liguei pra ele depois de um tempo, ficamos amigos e começamos a namorar. Lembro que nesse mesmo ano passamos o Natal juntos.

É como se eu tivesse parado no tempo. Desperto no meio da noite e não volto mais a dormir. Já não lembro mais se eu sonho. Não sei se sonhei com ele. À noite, tenho sobressaltos de barulho, ouço o som do elevador. Não sei mais qual tempo verbal usar. Não sei mais se eu falo ‘gostava’ ou ‘gosto’. Não sei direito quanto tempo se passou. É uma tristeza imensa, um sentimento estranho, você nao sabe quando essa situação vai terminar.

Existe uma aeronave que é usada pela coordenação geral de emergências ambientais do Ibama, a Poseidon, de 1976, que poderia fazer uma varredura no mar. Ela é utilizada na fiscalização e na vistoria das plataformas de petróleo. Já mandei inúmeros emails pedindo para que o [ministro de Portos e Aeroportos do Brasil] Márcio França autorize seguir com a busca. Nunca recebi resposta. O coordenador me diz que eles têm um protocolo e nesse protocolo fazem a fiscalização das águas no norte e no sul, veem se tem vazamento de petróleo, só que eles não vão sair da rota. Eu não estou tendo apoio, não temos órgãos competentes que se responsabilizem por velejadores, pescadores, pelo transporte marítimo.

As pessoas deveriam questionar isso, a importância de existir um órgão que tenha a preservação humana como prioridade. Nós não temos uma guarda costeira. A Marinha fica dentro de escritórios, só na parte burocrática, ela não fiscaliza nem os jetskis. Os órgãos competentes precisam entender que essa situação é atípica. As pessoas pensam: ‘É só mais um desaparecido’. Mas poderia ser seu marido, filho, seu pai, seu irmão.

Tenho muita esperança, e muitos velejadores experientes também, de que o Edison esteja vivo. Como não há vestígios da embarcação no mar, ele pode estar precisando de ajuda. Eu, Rosa e Ruana, nossas cachorras, estamos esperando por ele."

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