Cidades

Por Regina Galvão


A destruição causada pelos terroristas apoiadores do ex-presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, nos palácios dos Três Poderes, na Capital Federal, pode sair cara ao erário brasileiro. Cálculos estimados até o momento avaliam que os estragos no Palácio do Planalto podem superar a marca dos R$ 10 milhões. No Congresso, a estimativa é de R$ 6,5 milhões e, no Supremo Tribunal Federal, o edifício que ficou mais danificado com a ação dos vândalos, os prejuízos estão acima de R$ 4 milhões.

Destruição ao patrimônio em Brasília deve ultrapassar os R$ 20 milhões — Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images
Destruição ao patrimônio em Brasília deve ultrapassar os R$ 20 milhões — Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images

Apesar das altas cifras, no entanto, especialistas em arte e mobiliário ouvidos pela Casa Vogue dizem que os valores são inestimáveis. “O custo da destruição do patrimônio cultural é intangível. Não é só o valor monetário, mas a importância histórica do que foi destruído, um dano irreparável à Nação”, diz o antiquário e pesquisador Arnaldo Danemberg, que, no segundo mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva, classificou o mobiliário histórico do Alvorada e do Itamaraty a convite do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional de Brasília (Iphan-DF).

Presidente do Instituto Sergio Rodrigues, o designer Fernando Mendes ficou estarrecido ao ver destruídas a mesa Vitrine, poltronas Kiko e Navona e cadeiras Tião, todas assinadas pelo mestre carioca. “Espero que haja uma reação efetiva a essa barbárie. Esse acervo é histórico, alguns encomendados especialmente para os palácios”, afirma.

Além dos danos às obras de arte, ao mobiliário, aos vidros e tapetes, os relatórios apresentados até o momento apontam destruição em computadores – só na Câmara dos Deputados foram 400 aparelhos, com custo de reposição estimado em R$ 2 milhões –, impressoras, telefones, TVs, máquinas de raio-X e viaturas – essas usadas pela Polícia Legislativa no valor de R$ 500 mil.

Danos dentro do prédio do Supremo Tribunal Federal, edifício que ficou mais danificado com a ação dos vândalos. Na foto, a poltrona Ambassador Versão 2, design Jorge Zalszupin, foi criada sob medida para o plenário da Corte — Foto:  Rafael Vilela/ For The Washington Post via Getty Images
Danos dentro do prédio do Supremo Tribunal Federal, edifício que ficou mais danificado com a ação dos vândalos. Na foto, a poltrona Ambassador Versão 2, design Jorge Zalszupin, foi criada sob medida para o plenário da Corte — Foto: Rafael Vilela/ For The Washington Post via Getty Images

O diretor de Curadoria dos Palácios Presidenciais – Planalto, Alvorada e Granja do Torto —, Rogério Carvalho, afirma que só será possível estimar o valor dos restauros no Planalto depois da finalização dos laudos dos peritos. Segundo ele, verificou-se na visita da especialista do Iphan que a recuperação da tela As Mulatas, de Di Cavalcanti, será mais onerosa do que o previsto. “Os sete furos foram feitos com pedras portuguesas retiradas da praça dos Três Poderes. Esses rasgos estão à meia altura da tela, o que comprometeu sua resistência, por isso, em vez de suturas, teremos de reentelar por completo, muito provavelmente.” Rogério disse ter visto uma cena de guerra quando entrou no Planalto no fim da tarde de domingo (8).

Tela 'As mulatas', de Di Cavalcanti, foi perfurada sete vezes com pedras portuguesas — Foto: Andressa Anholete/Getty Images
Tela 'As mulatas', de Di Cavalcanti, foi perfurada sete vezes com pedras portuguesas — Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Outra recuperação que preocupa o curador é a do relógio do século 17, que veio ao Brasil com a corte portuguesa e foi levado a Brasília pelo governo de Juscelino Kubitschek. “Em uma ação muito brusca, arremessaram o relógio ao chão, separando os pedaços. No Brasil, não temos especialistas que possam recuperá-lo. Recebemos uma proposta da empresa suíça Adeumars Piguet se oferecendo a nos auxiliar nesse restauro”, conta.

Considerado uma peça rara, o relógio fabricado pelo relojoeiro francês de Balthazar Martinot no século 17 foi dado de presente a dom João 6º pela corte de Luís 14, da França. O objeto foi desenhado por André-Charles Boulle poucos anos antes de ser trazido ao Brasil — Foto: Mariana Alves/Iphan-DF
Considerado uma peça rara, o relógio fabricado pelo relojoeiro francês de Balthazar Martinot no século 17 foi dado de presente a dom João 6º pela corte de Luís 14, da França. O objeto foi desenhado por André-Charles Boulle poucos anos antes de ser trazido ao Brasil — Foto: Mariana Alves/Iphan-DF

A possível ajuda, porém, só será definida depois da reunião proposta pela ministra da Cultura, Margareth Menezes, que instituirá um grupo de trabalho com membros da Presidência da República, do Iphan, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), da Polícia Federal e de especialistas, com o objetivo de orientar os restauros nos três palácios. Entre as sugestões que Rogério levará ao encontro, está o pedido de tombamento pelo Iphan desses acervos.

Pinturas danificadas estão sobre uma mesa em um escritório no Palácio do Planalto — Foto: Isabella Finholdt/picture alliance via Getty Images
Pinturas danificadas estão sobre uma mesa em um escritório no Palácio do Planalto — Foto: Isabella Finholdt/picture alliance via Getty Images

Na Câmara dos Deputados, a chefe do serviço de preservação, Gilcy Rodrigues Azevedo, conta que o plano de gerenciamento de risco agilizou o processo de recuperação das peças pela equipe formada por 15 restauradores. A escultura A bailarina, de Victor Brecheret, por exemplo, havia sido arrancada de seu pedestal e largada no chão, mas já foi restaurada e recolocada no posto original. “Tínhamos o diagnóstico de todos os itens e já sabíamos o que fazer com os que foram danificados. Tudo foi higienizado para eliminar o pó químico”, afirma ela”, afirma ela.

Dos 46 presentes protocolares (itens doados por autoridades em visita oficial ao país) expostos no Salão Verde, 29 permaneceram íntegros, 12 foram danificados com possibilidade de restauração e três, destruídos: dois vasos de porcelana e uma escultura em forma de ovo de avestruz. “Conseguimos garimpar algumas partes dos vasos de porcelana, mas temos poucos pedaços para reconstruí-los.” E há ainda dois itens desaparecidos: uma pérola em um recipiente de ouro, presente do Catar, e uma bola de futebol assinada pelo jogador Neymar. “Além de quantificar os valores de cada objeto, teremos de avaliar o material e a mão de obra empregados no restauro para chegarmos ao número exato do que representou esse prejuízo”, diz Gilcy.

Trabalhadores consertam o piso do Palácio do Planalto, em Brasília — Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images
Trabalhadores consertam o piso do Palácio do Planalto, em Brasília — Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images

O arquiteto Rodrigo Azevedo, que faz parte da equipe do departamento técnico da Seção de Patrimônio Edificado no Congresso Nacional, afirmou que ainda não se tem a dimensão dos danos causados com relação à estrutura dos edifícios tombados. “Não sabemos ainda se os arranhões feitos no piso de granito só marcaram a resina ou chegaram a machucar a pedra. Há ainda pichações a serem removidas e muitos vidros a serem repostos.” Rodrigo, no entanto, avalia que os estragos poderiam ter sido ainda piores, visto que os vândalos tentaram atear fogo em algumas áreas. Os atos não foram bem-sucedidos porque carpetes e tecidos são antichamas.

No Senado, que teve o piso alagado e quase todas as vidraças quebradas, a tapeçaria de Burle Marx dos anos 1970 ficou encharcada, rasgada e há suspeitas de que um dos terroristas tenha urinado na obra. “As cores se sobrepuseram e esse será um grande desafio para nós. Ainda não temos estimativas de quanto custará essa recuperação. No nosso quadro técnico não temos restauradores especializados em têxtil para saber se a peça poderá ou não ser recuperada”, diz Ismail de Souza Carvalho Neto, chefe do laboratório de restauração do Museu do Senado.

A tapeçaria de Burle Marx após a invasão bolsonarista — Foto: Divulgação
A tapeçaria de Burle Marx após a invasão bolsonarista — Foto: Divulgação

O restauro do painel de Athos Bulcão é outro item que ainda não se sabe quanto custará. “Para se ter ideia, um tubinho de tinta pode sair por mais de R$ 800 e devemos empregar pelo menos uns cinco, ou até mais”, informa.

Painel de Athos Bulcão, no Museu do Senado, apareceu danificado após a invasão  — Foto: Andressa Anholete/Getty Images
Painel de Athos Bulcão, no Museu do Senado, apareceu danificado após a invasão — Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Quem paga a conta?

A Advocacia-Geral da União pediu à Justiça Federal do Distrito Federal o bloqueio de R$ 6,5 milhões em bens de 52 pessoas e de sete empresas suspeitas de promover a ida dos terroristas à Capital Federal. A quantia deve ser utilizada para garantir a reparação dos danos às sedes dos três palácios, caso os suspeitos sejam condenados. O valor da retenção, porém, pode aumentar dependendo dos prejuízos que estão sendo contabilizados. Em um cálculo estimado já se chega a mais de R$ 20 milhões em danos, o que daria para construir cerca de 236 casas populares de 50 m², no valor unitário de R$ 85 mil.

A escultura 'A Justiça', de Alfredo Ceschiatti, foi pichada com os dizeres: "Perdeu, mané" — Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images
A escultura 'A Justiça', de Alfredo Ceschiatti, foi pichada com os dizeres: "Perdeu, mané" — Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images

Atenta à recuperação dos danos e a seus valores, Gilcy Rodrigues afirma que sentiu tristeza ao entrar no Congresso Nacional no dia seguinte à invasão. “O patrimônio não tem voz, tem representatividade. Aqui, temos a memória do poder legislativo brasileiro e trabalhamos há anos para deixá-lo íntegro para as gerações futuras. Foi muito difícil ver essa destruição”, diz a chefe do serviço de preservação, com voz embargada.

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