Conheça a Síndrome do Coração Partido, cardiopatia que pode ser confundida com uma ‘dor de amor’

Condição é doença rara surgida após traumas ou estresse intenso e tem sintomas parecidos com os de um infarto

Por — São Paulo


A Síndrome do Coração Partido, ou Síndrome de Takotsubo, cujo termo popular geralmente é associado a desilusões amorosas, está relacionada à elevada descarga de hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina, liberados pelo organismo Freepik

RESUMO

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GERADO EM: 24/06/2024 - 05:03

Síndrome do Coração Partido: Causas e Tratamento.

A Síndrome do Coração Partido, relacionada ao estresse intenso, pode ser confundida com um infarto. O tratamento envolve medicamentos e mudanças de hábitos para prevenir novas crises. A importância de lidar com os desafios emocionais de forma saudável é enfatizada.

Bastou a notícia chegar para que o coração de Marlene Dias de Oliveira, de 55 anos, fosse atingido em cheio pela dor. E não só no sentido figurado. Ao saber que a irmã acabara de descobrir um câncer no seio, em agosto do ano passado, a dona de casa teve sintomas semelhantes aos de um infarto: dores no peito tão fortes a ponto de não conseguir parar em pé, acompanhadas de crises de ansiedade. “Elas vinham do nada, às vezes em dias seguidos, e duravam cerca de meia hora. Parecia que eu estava morrendo”, conta Marlene.

Começou, então, uma peregrinação por hospitais e a fazer baterias de exames, que a princípio não detectaram nada anormal. Mas ao chegar ao Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, referência em atendimentos de problemas cardíacos em São Paulo, descobriu ser portadora de algo até então desconhecido: A Síndrome do Coração Partido, ou Síndrome de Takotsubo. Considerada rara, a cardiopatia, cujo termo popular geralmente é associado a desilusões amorosas, está relacionada à elevada descarga de hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina, liberados pelo organismo quando temos o nosso “coração partido”, explica Jasvan Leite, cardiologista do Hospital do Coração, na capital paulista.

“Pessoas com vida estressante, sobrecarga intensa de trabalho, ou que passam por momentos emocionalmente difíceis, como perdas financeiras, morte de um ente querido ou separação, têm a liberação desses hormônios em maior concentração.” Era o caso de Marlene. Sem problemas de saúde prévios, viveu dias de choro e muita angústia, a base de medicamentos, para aplacar a ansiedade e o medo da morte da irmã, que respondeu bem à quimioterapia. O tratamento consiste no uso de remédios utilizados em pacientes com insuficiência cardíaca ou que reduzem o esforço do coração para manter o bombeamento do sangue. “A duração depende da gravidade da situação. Muitas vezes, é necessário manter a medicação por até seis meses”, continua Leite.

Reforçar bons hábitos, como fazer exercícios, ter boa alimentação e evitar momentos de alta tensão também é recomendado. “Restringi a bebida alcoólica, fui encaminhada ao psiquiatra, e continuo com a terapia. Na última vez em que vivi uma emoção forte, no velório de uma amiga próxima, logo saí, fui conversar com a minha filha e tentei me acalmar”, conta a dona de casa. O segundo nome da cardiopatia, Takotsubo, vem da palavra japonesa que significa “armadilha para capturar polvos”. Ela é como um jarro deitado na diagonal, com uma “boca” mais aberta. Quando o ventrículo esquerdo do coração muda de forma pelo estresse, tem aparência semelhante.

O segundo nome da cardiopatia, Takotsubo, vem da palavra japonesa que significa 'armadilha para capturar polvos' — Foto: Freepik

Recentemente, uma mulher morreu na Inglaterra em razão da doença, ao saber que o marido, que enfrentava um câncer, teve piora em seu quadro de saúde. Três dias depois, ele também faleceu. “A síndrome é diagnosticada após o paciente sentir dor no peito, que simula um ataque cardíaco. O eletrocardiograma identifica alterações, assim como o ecocardiograma e o cateterismo”, pontua Antonio Ghattas, cardiologista do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo. “Para a prevenção, é preciso uma análise psicológica , com o intuito de entender o que motiva tamanho nervosismo e ansiedade, a fim de evitar problemas futuros”, garante ele.

Muito ligada à irmã, assumindo até mesmo uma dependência emocional em razão de traumas vividos na infância, a professora Ana Elizabete Cardoso, de 20 anos, teve a primeira crise ao descobrir que ela iria se mudar para os Estados Unidos e, por isso, ficariam distantes. “Sentia falta de ar, pontadas e dor aguda no peito, tontura e palpitação. Conversando com meu psiquiatra, investigamos o que estava acontecendo. Quando soube do diagnóstico, achei que era alguma brincadeira por causa do nome”, fala Ana. A professora tomou remédios por um curto espaço de tempo e hoje faz terapia ocupacional e pratica muay thai. “São atividades que me ajudam a entender melhor meus sentimentos”, garante.

Segundo os profissionais, não existem razões para alguém ter mais propensão à Síndrome do Coração Partido. No entanto, a psicóloga Gláucia Tavares diz que lidar com os desafios da vida de forma “mais complicada” é predispor de danos físicos e emocionais. “Não há ruptura entre nosso corpo e mente. Temos que reconhecer que abalos emocionais não são fricotes ou fraquezas”, aponta a profissional. “Vivemos a cultura dos excessos e exclusões: ou está tudo bem ou não está nada bem! E este processo tende a oferecer mais chances de adoecer. Vale repensar e ter atitudes mais realistas”. E um coração mais tranquilo.

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